Quebrando o armário de vidro: LGBTQ+ e a sala de administração

13 nov 2018

Quebrando o armário de vidro: LGBTQ+ e a sala de administração

Globalmente, milhões de pessoas identificam-se como LGBTQ+, mas executivos que se assumiram são poucos e distantes entre si.

Há uma estimativa de 455 milhões de pessoas LGBTQ+ no mundo, no entanto, poucos c-suite leaders "assumiram-se" abertamente e em algumas partes do mundo, as possibilidades de haver um CEO LGBTQ+ são mais remotas do que nunca.

Em julho de 2018, a McKinsey convocou em Lisboa, Portugal a reunião inaugural da The Alliance. A conferência reuniu mais de 115 LGBTQ+ líderes do setor privado, público e social de 19 países.

Na agenda da discussão estava a inclusão e diversidade, a nível pessoal e nas suas organizações, mas também no local de trabalho e na sociedade de forma mais ampla.

Derrubar barreiras

William Decherd, partner da McKinsey em Dallas, disse: “Todos sabemos que as pessoas da comunidade LGBTQ podem enfrentar barreiras - às vezes visíveis outras vezes invisíveis - na vida e no trabalho. Muitas organizações já estão a tentar promover a inclusão e a diversidade. Mas é surpreendente o número de pessoas, que ainda hoje, estão "fora" nas suas vidas pessoais, mas não no trabalho."

De acordo com a McKinsey, 455 milhões de pessoas da LGBTQ+ no mundo, apenas 27% se identificaram por razões que incluem pressão social e restrições legais.

É claro que o fato de haver a necessidade de um evento especial para endereçar os desafios enfrentados pelos líderes LGBTQ+, demonstra até que ponto a sociedade ainda precisa ir, antes que a orientação sexual de uma pessoa seja vista como irrelevante na sua capacidade de desempenhar um papel de liderança.

Da mesma forma que os tetos de vidro precisam ser quebrados para colocar mais mulheres em salas de administração, não deve haver "armários de vidro" (como disse Kevin Sneader, global managing-partner da McKinsey), mantendo afastados membros da comunidade LGBTQ+.

“Não podem haver tetos de vidro nem armários de vidro.”

Em Lisboa, líderes que compartilharam histórias das suas jornadas pessoais e discutiram os problemas enfrentados pela comunidade LGBTQ+ incluíram Patrick McLaughlin, CHRO da PepsiCo Frito-Lay, Amy Taylor, presidente e diretora de marketing da Red Bull América do Norte, e Katrin Suder, ex Secretário de estado do Ministério da Defesa da Alemanha.

Inevitavelmente, parte principal do ativismo em relação ao LGBTQ+ e ao C-suite provém de lugares como a América do Norte, a Europa Ocidental e a Austrália. Aqui, as leis para o casamento entre pessoas do mesmo sexo foram aprovadas, os níveis de tolerância são elevados e encontrar executivos LGBTQ+ na sala de administração é uma situação mais comum.

Isto reflete-se pelo número de executivos LGBTQ+ numa ampla gama de setores que aparecem na lista OUTstanding do Financial Times. Todos os anos, esta lista “executivos e aliados LGBT que são não só bem-sucedidos nas suas carreiras, mas que também criam locais de apoio no trabalho para outras pessoas LGBT”.

Enfrentar o medo

Fora destas regiões mais progressistas, a situação para pessoas LGBTQ+ deixando sozinhos os senior executives que se assumiram - é assustadoramente diferente.

Viajantes LGBTQ+ que foram à Rússia para o recente Campeonato do Mundo de futebol foram aconselhados a tomar precauções extremas, pois "não enfrentariam apenas o risco de violência de grupos vigilantes, mas também não teriam proteção adequada do Estado". A possibilidade de existir na Rússia um líder de negócios LBGTQ+ num futuro próximo é remota.

Mas leis menos progressistas não significam ausência de ativismo. No ano passado, a Human Rights Watch reportou que vários ativistas LGBTQ+ do Médio Oriente e Norte de África “expressaram frustração” pela cobertura dos medias internacionais na abordagem que retratou a região como um buraco negro para os direitos LGBTQ+. Essa cobertura falha em reconhecer a agência de ativistas LGBT+ da região, tornando-os invisíveis.

"Não queremos mais ser retratados como apenas vítimas", disse à Human Rights Watch, Zoheir Djazeiri, ativista da Argélia. “Queremos falar sobre a realidade, falar sobre violência, mas também para [mostrar o que é] positivo”.

Mesmo em países como os EUA e a Austrália, onde há uma série de senior executives LGBTQ+, muito conhecidos como o da Apple, Tim Cook, e Alan Joyce, da Qantas, há um medo subjacente de contenção. Há uma consciência assustadora da possibilidade de que o relógio possa voltar atrás.

Celebrar a diversidade

Apesar dos desafios, os executivos e aliados LGBTQ+ continuam a defender que o aumento da diversidade e inclusão é um ponto forte.

Andrew Porter, Líder da Diageo em Recruitment Transformation e Líder Europeu da Rainbow Network, salienta: “Sabemos que, para o nosso negócio prosperar, dependemos de ter diversidade de talento, competências e capacidades e que os nossos colaboradores devem refletir a nossa vasta base de consumidores - e isto, é claro, inclui pessoas LGBTQ+ ”.

“Vemos a diversidade como um dos principais facilitadores do crescimento do nosso negócio. Os nossos valores, propósitos e standards estabelecem as condições para que respeitemos a contribuição única que cada pessoa traz.”

“Sê tu próprio”

Na África do Sul, Liesbeth Botha, sócia da PwC, está a fazer o seu melhor para mudar as atitudes. Botha está na lista do FT OUTstanding pelos seus esforços em promover iniciativas LGBTQ+. Ela é a co-fundadora da rede "Be Yourself" da PwC na África do Sul. Deste modo, organiza eventos sociais e de sensibilização, networks com organizações externas semelhantes, para ajudar a criar um ambiente de trabalho de inclusão, onde os funcionários possam realmente “ser eles próprios”.

De acordo com Botha “ter uma mulher lésbica num cargo elevado muda a perspetiva de tudo. Aprecio o fato de poder ser um modelo para as mulheres, lésbicas ou qualquer um que seja diferente dos estereótipos que as pessoas têm nas suas cabeças”. Botha e a sua esposa estão casadas ​​há 10 anos - desde que o casamento gay se tornou legal na África do Sul - e têm dois filhos. Em muitos outros países do continente africano, a história de Botha não seria apenas rara, mas impossível.

A cultura de inclusão

Jane Griffith, Líder Nacional da Diversidade da Odgers Berndtson no Canadá, acrescenta: "Há muitas evidências que mostram os efeitos mentais e físicos negativos que os membros da comunidade LGBTQ+ sofrem quando não são capazes de “assumir-se'".

“O nosso objetivo, quer no local de trabalho quer na sociedade, deve ser criar uma cultura de inclusão para que as pessoas se sintam confortáveis ​​e possam sobressair. A ênfase deve estar na avaliação dos candidatos com base nas suas capacidades e competências, em vez da "categoria" a que pertencem."

Ao dar conselhos a jovens LGBTQ+ pessoas que ambicionam tornar-se líderes de negócios, Porter da Diageo partilhou: “Seja você mesmo! Nunca se desculpe por quem é e tenha orgulho de todas as coisas incríveis que pode oferecer. ”

Ele continuou: “Ninguém é 'apenas' o rótulo que as pessoas nos fazem vestir - somos todos de uma forma complicada bonita, únicos e diferentes, e felizmente há uma perceção crescente de que abraçar a diferença torna-nos todos mais ricos. Todos temos preconceitos, mas aprender a entender e ter consciência do seu significado é o que nos torna mais ligados às pessoas ao nosso redor”.

Este artigo é da última edição da revista OBSERVE da Odgers Berndtson “Talent and Potential”.

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